sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Meu Lendário Cavaleiro


- Mãe, lê pra mim essa história que você está lendo?
- Ah filho, é um livro de adulto! Acho que você não vai gostar.
- Sobre o que é?
- Sobre uns cavaleiros, monges cavaleiros (O Legado dos Templários, de Steve Berry, Ed. Record, 2007).
- Padres que lutavam?
- É filho, houve um templo em que eles lutavam mesmo, com armaduras, espadas, escudos e bandeiras, mas depois eles passaram a viver fechados dentro de mosteiros.
- Ah, mãe. Me interessa sim. Lê aí, vai:
- Tá bom. Nesse pedaço que eu estou lendo, tem um rapaz que quer se tornar um templário, um cavaleiro, e ele está diante do mestre fazendo um juramento. O mestre diz:

- "Você pede uma coisa grandiosa. De nossa Ordem, você conhece apenas a fachada. Vivemos nesta Abadia resplandecente, comemos e bebemos bem. Temos roupas, remédios, educação e realização espiritual. Mas vivemos sob ordens duras. E difícil tornar-se servo de outrem. Se quiser dormir, talvez seja acordado. Se estiver acordado, pode receber ordens para se deitar. Pode não querer ir onde for ordenado, mas terá de ir. Praticamente não fará nada que deseja.
Você pode sofrer bem todas estas dificuldades?".

(Capítulo 51, pág. 441).
E aí filho, entendeu?
- O que é Abadia?
- O lugar onde os monges moram, tem igreja, horta, o lugar onde eles dormem - tudo que eles precisam fica dentro da Abadia. Eles quase não saem lá de dentro.
Você acha que o rapaz respondeu que sofreria isso tudo para ser um cavaleiro templário ou não?
- Acho que ele disse que sim, né mãe? Qual é a dificuldade? É como ser criança. Quando a gente quer ficar dormindo, o pai acorda a gente pra ir pra aula. Quando a gente quer ficar acordado vendo TV, a mãe manda a gente dormir. A gente também ganha roupa, remédio, e o pai paga a escola, mas quando a gente está brincando mandam a gente ir comer, tomar banho, escovar os dentes. Criança também não faz nada do que quer, né?
- É filho... Que tal você pegar um livrinho da Ruth Rocha ou da Eva Furnari pra ler aqui do meu ladinho, hein?

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Quantos anos você tem?

























Minha avó faz 100 anos no próximo dia 26 de agosto. A família não agüentou esperar. No último sábado minhas primas fizeram uma grande festa, chamaram todos - netos, bisnetos, tataranetos e amigos de longa data (Ela ainda é amiga de pessoas que foram seus vizinhos há mais de 30 anos!).
Foi uma tarde inacreditável.
Minha avó tem a mente muito ativa. Gosta de ver os telejornais e discute política com uma agilidade de dar inveja. Eu olhava pra ela durante o aniversário e achava difícil acreditar que ela já tenha 100 anos.
Durante a festa percebi que os mais velhos guardam de nós (os relativamente mais novos) uma imagem mental de quando éramos beeem, beeem, mais jovens. Fui tratada como a caçulinha do José, várias vezes.
As pessoas paravam minha sobrinha e perguntavam se ela era a mãe dela e eu travei longas conversas como se fosse minha irmã mais velha, antes de criar coragem para desfazer o engano.
Outra descoberta foi a seguinte: tem gente que melhora com o tempo (minhas primas estão mais belas a cada ano), tem gente que nem tanto, mas o que você sente quando era criança diante de uma pessoa, raramente muda.
Minha mãe tinha uma amiga, Dona Nini, que hoje deve estar com uns 75 anos - ou seja, quando eu era pequena ela devia ter uns quarenta anos. Eu a achava M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A! Ela era uma mulher elegantérrima. Eu ficava hipnotisada pelas jóias que ela usava. Adivinhem como ela estava na festa? Chiquérrima! Dona Nini usava jóias belíssimas, modernas, e se sentava à mesa com a mesma elegância, inúmeras vezes lembrada por minha mãe quando queria que eu me comportasse durante uma refeição. Para mim não houve sequer uma leve mudança. Ela é a mesma. Sei que não é. Sei que o tempo passou, que ela se despediu de muitas pessoas queridas de lá para cá, e que isso deixa sim marcas no coração e no corpo. Mas os gestos, a voz baixa, pausada, estão eternizados em minha mente – imutáveis.
Fiquei um bom tempo olhando para outra comadre da minha mãe, minha tia Maria Olívia. Ela está com mais de 80, com certeza, mas eu também só conseguia me lembrar de como ela e minha mãe conseguiam ficar horas, horas e horas conversando e rindo sem parar. E lá estava ela na festa, sempre querendo engatar uma boa conversa. Ali estava outra mulher excepcionalmente refinada na minha mente. Eu só conseguia me lembrar de como eu ficava espantada quando a via comendo sanduíches com garfo e faca. Nem um tomate, nem uma folhinha de alface - ousava sair do lugar. Mulher de governador, depois mãe de senador, andava de um lado a outro do estado do Acre fazendo campanha – em cima do salto! Gente, vocês não tem idéia do calor e dos lugares onde ela se metia!
Estava pensando nisso quando cheguei em casa, liguei a TV e ouvi a propaganda da Revista Boa Forma deste mês: “Tânia Kalil revela seus segredos para chegar aos 32 em boa forma”. Tomei até um susto! Fala sério, quem precisa de um truque para ficar bela com 32 anos?
Quem tem segredos de beleza a revelar é minha Tia Maria Olívia, é Dona Nini, é Dona Maria Alaíde – minha avó centenária. Elas souberam envelhecer honrando suas histórias de vida – isso é que belo!

Na foto Vovó Maria pergunta à tataraneta Giulia - minha sobrinha-neta (é, eu sou tia-avó): Quantos anos você tem?

sábado, 1 de agosto de 2009

Sabadão

Sabadão...
Um dos raros em que acordo de manhã e não vou pro francês (as aulas só começam na próxima semana!).
Tomo meu café na cama, agarro um livro e fico lá...Feliz, deitada!
Meu filho então me chama: “Manhêêêê!!! Você já acordou? Vem ver uma coisa aqui!”.
Não respondo.
Meu marido está no banheiro, a babá está na sala e a cozinheira na cozinha, por que é que eu é que tenho que ver a tal coisa?
Ele insiste: “Manhêêê! Vem ver... É o Tai Lung (leopardo da neve, vilão do filme “Kung Fu Panda”)... nesta fase ele destrói tudo!.
Eu entendi tudo.
Meu filho está jogando vídeo-game e quer que eu levante para compartilhar com ele a emoção de ver um leopardo da neve destruindo um templo com socos, chutes - golpes de Kung Fu.
Levanto.
Vejo meu filho pulando em cima do sofá, imitando o Tai Lung e a ponto de destruir minha sala. Olho a tela da TV, comento alguma coisa sobre a habilidade do Tai Lung e peço: “Filho, não pula no sofá... Você pode se machucar e vai acabar estragando o estofado”.
Volto para a cama.
Minutos depois meu marido me chama: “Amôô, você já leu meu blog?”. Agarrada no livro solto um: “Ainda não....”. Ele grita de longe: “Leu?”.
Solto o livro. Pergunto:”Sobre o que você escreveu?” Ele começa a falar.
Tenho que ir até a sala para ouvir o que ele está dizendo.
Faço um comentário sobre o post dele.

Volto pro quarto, deito.

Dois segundos depois a cozinheira bate na porta: “Acabou a água do galão, posso pedir pro moço trazer outro?”.
“Pode, pega o dinheiro no potinho que fica em cima do micro-ondas!”. O que ela imaginou? Que eu ia dizer não?
Consigo agarrar o livro e ler umas duas páginas.

A babá do meu filho bate na porta e diz: “Você está lembrando que seu filhote precisa levar uma cópia da certidão dele pra escola na segunda-feira pro dever de história?”.

“Não, não tô. Corre ali na papelaria e tira pra mim, por favor!”.

O que raios a professora de história quer com a certidão de nascimento do meu filho?. Tento novamente ler meu livro.
Instantes depois, meu filho me chama - outra vez: “Manhêê! Traduz um negócio que o Tai Lung está dizendo aqui pra mim, por favor!”.
E lá vou eu, outra vez pra sala.


“I’m at home again, master!”. ”This is not your home anymore and I’m not your master anymore”. Filho, o Tai Lung diz: “Estou novamente em casa, mestre”. O Chifu responde: “Esta não é mais sua casa e eu também não sou mais seu mestre”.

Volto para cama.


Nem bem eu deito, meu marido me chama: “Amôô, me faz um favor???”

Eu levanto.


Vou até a sala e digo: “Gente, vocês não tem medo de eu abrir aquela porta e sumir no mundo não?”.

Meu marido me olha com cara de espanto e responde: “Se você sair assim, de pijama, sem pentear os cabelos e sem escovar os dentes eu não tenho não. Rapidinho alguém chama o SAMU e eu já sei que você vai parar - no HPAP ( Hospital de Pronto Atendimento Psiquiátrico)!”.
Sabadão...é melhor ouvir um negócio desses do que ser surda, né?

Eu reclamo, mas é muito bom saber que sou importante na minha casa...

domingo, 7 de junho de 2009

Do baú - Ano Novo, vida nova, mas... calçando sapatos antigos?




















Texto retirado do baú - escrito para publicação na Revista Destaque em janeiro de 2005.



No fim de 2004 tive que explicar a meu filho o que penso que seja o reveillon - uma das difíceis tarefas da maternidade e da paternidade, ajudar na construção de conceitos.
Penso que o reveillon seja a celebração da passagem do tempo. A passagem do tempo nos diz que mais um pedaço da vida se foi, celebramos nossas conquistas, avaliamos nossas perdas, sonhamos com o que pode ser o futuro. Foi assim em 2004, desejo que seja assado em 2005...



No início de cada ano não raro escutamos alguém dizendo: “Ano novo, vida nova!”. O desejo de mudança está sempre presente na celebração do ano novo.

Muitas pessoas até escrevem uma lista de boas intenções: parar de fumar, fazer ginástica, caminhar, meditar... A verdade é que grande parte dessas pessoas acaba não efetivando essas mudanças, a despeito da passagem do tempo e de suas intenções mais honestas. Passadas as festas, a vida continua praticamente a mesma de sempre.
O que é preciso para que uma mudança realmente ocorra? Por que é tão difícil mudar? “Querer é poder”, dizem alguns, mas sabemos que só querer não é o bastante.
Querer é apenas um passo. Para ser alguém novo, modelo 2005, é preciso que, de alguma forma, o jeito de ser e de viver em 2004 morra. Somente haverá vida nova se tivermos a graça de esquecer o que fomos sempre. Aí reside a dificuldade!
Em artigo publicado no Jornal Correio Popular, o psicanalista Rubem Alves abordou de forma muito interessante o tema da transformação. Transcreverei a seguir um trecho do artigo, com a expectativa de que ao menos ele nos propicie alguma reflexão, nos auxiliando a efetivar as mudanças desejadas:
“As cigarras passam a maior parte de suas vidas debaixo da terra, alimentando- se das raízes das árvores. Disseram-me que há certas espécies de cigarras que chegam a viver 15 anos debaixo da terra. De repente, alguma coisa acontece, e surge dentro delas um impulso irresistível para mudar. Saem então dos seus túneis, sobem pelos troncos das árvores, arrebentam suas cascas, subterrâneas gaiolas, e se transformam em seres alados. Se elas não abandonarem suas cascas não se transformarão em seres alados. Continuarão a ser seres subterrâneos. Nossos demônios são nossas cascas. Abandonar as cascas é esquecer a forma subterrânea de ser. A grande transformação das cigarras acontece quando a morte se aproxima. É a proximidade da morte que lhes diz: ‘Chegou a hora de voar, cantar e fazer amor, para continuar a viver...’ Eu acho que a morte é o único poder capaz de nos trazer vida nova. A consciência da morte nos força a sair de nossas sepulturas, nos dá asas, nos convida a voar e a amar.”


Do baú - Último Dia

Do baú - texto escrito para publicação na Revista Destaque em agosto de 2005.



A música O Último Dia é de Paulinho Mosca, mas no CD que escutei a caminho do trabalho era o Ney Matogrosso quem cantava e perguntava:



“Meu amor, o que você faria Se só te restasse um dia Se o mundo fosse acabar Me diz o que você faria”.

Fiquei lembrando as coisas que estão acontecendo em nosso país e outras tantas que estão acontecendo pelo mundo afora. Há momentos em que de fato pensamos que, em todos os sentidos, o mundo está mesmo na iminência de acabar.
E aí? Se de verdade só nos restasse um dia? O que poderíamos fazer? O que gostaríamos de fazer? Se esse fosse um dever de casa, se tivéssemos que, como nos tempos de escola, escrever uma redação respondendo à pergunta: “Se só lhe restasse um dia, o que você faria?”. Iria à academia, ao trabalho, passaria no banco, pagaria contas e, no fim do dia, iria ao curso de inglês? Viveria exatamente como se não soubesse que o mundo ia acabar?
Talvez o mais fácil seja saber o que não faríamos. Identificaríamos nossos deveres, nossas obrigações, nossas responsabilidades – coisas que algumas vezes até nos dão prazer imediato, mas que fazemos principalmente porque acreditamos que existirá um amanhã?
Ao tentar listar o que efetivamente faríamos, possivelmente reconheceríamos nossos sonhos - coisas que sempre quisemos fazer e que muitas vezes não pudemos ou simplesmente, também, sempre deixamos para depois; nossos desejos - coisas que sabemos que nos farão um bem enorme, mas que, por algum motivo, não realizamos; e nossas experiências de amor e de beleza - coisas simples, que já fizemos várias vezes e que sabemos ser importantes para nós.
É dessa última categoria que penso que a essência da vida é feita, como um colar de contas. O tempo é o fio, no qual vamos enfiando experiências de amor e de beleza – assistir a um pôr-do-sol, dar um beijo na pessoa amada, ouvir linda música, fazer um passeio a cavalo, receber uma carta de uma amiga, olhar o filho saindo da escola, ler um bom livro, descansar na rede, sentir o cheiro da terra molhada depois da chuva, comer uma comida gostosa. Quando vivemos experiências como essas, por vezes sentimos que valeu a pena ter vivido a vida inteira só por um único desses momentos. E, se já houve muitos momentos desses na vida, que importa o que faremos no último dia?
Contudo, identificar nossos deveres, obrigações, responsabilidades, sonhos, desejos e nossas experiências de amor e beleza pode ser um exercício de autoconhecimento interessante. A mim, fez lembrar dois poemas há muito esquecidos no baú do coração – do Alberto Caeiro: “Sejamos simples e calmos como os regatos e as árvores, e Deus amar-nos-á fazendo de nós belos como as árvores e os regatos, e dar-nos-á o verdor na sua primavera, e um rio onde ter quando acabemos!”; e da doce poetisa goiana Cora Coralina: “Senhor, que eu não lamente o que podia ter, o que se perdeu por caminhos errados e nunca mais voltou. (...) Que eu possa agradecer a Vós minha cama estreita, minhas coisinhas pobres, minha casa de chão, pedras e tábuas remontadas. E ter sempre um feixe de lenha debaixo do meu fogão de taipa, e acender, eu mesma, o fogo alegre da minha casa, na manhã de um novo dia que começa”. Espero que no meu último dia, independente do que eu faça ou deixe de fazer, me mantenha calma e mansa, que não lamente o que não tive, seja grata pelo que tive e, até o último segundo, tenha esperança de que amanhã haja um novo dia.

Do baú - Coração partido ou por que a separação é tão difícil?

















Do baú - texto escrito em setembro de 2005 para publicação na Revista Destaque.



Por telefone recebi a notícia: “Bianca se separou”. Na mesma semana, uma outra amiga, sentada diante de mim, disse: “Me saparei”. Os tempos verbais indicavam claramente – as ações ocorreram no passado, estavam concluídas. Em casos de separação, entretanto, me atrevo a dizer, quase nunca é assim. É difícil saber quando começa a ruptura amorosa e, mais ainda, quando é que ela termina. Meu coração ficou apertado. Duas histórias de amor chegando ao fim... Imaginei o sofrimento de todos envolvidos e pensei, será que tem mesmo que ser sempre assim?
Separações e divórcios nunca foram tão numerosos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam para um aumento de 30,7% nas separações no País. O incremento foi superior nos divórcios, com 59,6%.
Embora separações e divórcios sejam freqüentes, as estatísticas em nada aplacam o sofrimento que se abate sobre nós quando acontece em nossa casa ou com alguém próximo a nós. Ninguém sabe direito como enfrentar a dor, muitas vezes acompanhada por decepção, disputas, traição, agressividade, abandono.
Em algumas culturas, a idéia de que um elo possa ser rompido não é percebida de forma tão trágica e, muitas vezes, solitária como na nossa. Entre os tuaregues, um povo nômade do deserto africano, as separações são oficializadas por meio de uma festa. Quando soube disso, pensei logo: “Ah, essa festa deve ser uma forma de fugir da tristeza provocada pelo abandono!” Nossa cultura valoriza o ‘até que a morte nos separe’, o amor que deve durar toda uma vida. Para nós, é difícil compreender uma sociedade baseada no amor não durável.
Antropólogos afirmam que as festas dos tuaregues são possíveis porque todo o grupo compartilha a idéia de que as relações entre os casais são, por vezes, efêmeras. As metamorfoses da vida são percebidas por eles com naturalidade, são passagens. A separação é uma passagem, como o nascimento, a iniciação feminina ou masculina na idade adulta, ou o casamento. O sentido atribuído ao provisório é o de inerente à vida, não tem a força pejorativa de instável, inseguro.
O antropólogo italiano Franco La Cecla, professor da Universidade de Veneza, escreveu um ensaio: Je Te Quitte, Mais Non Plus ou l’Art de la Rupture Amoureuse (Eu te deixo. Mas nem tanto. Ou A Arte da Ruptura Amorosa).
La Cecla classificou as separações que ocorrem em sociedades como as nossas em quatro categorias: Eu Te Deixo, Você Me Deixa, Você Faz Tudo Para Que Eu Te Deixe e Nós Nos Deixamos. Os dois primeiros casos supõem uma ação direta, pontual, mas não eximem os parceiros ‘agentes’ de serem percebidos como cruéis. No terceiro caso há um processo, que envolve uma suspeita, uma constatação e uma reação, por fim, os dois desempenham o papel de ‘alguém que maltrata’. Já o quarto caso, Nós Nos Deixamos, grande parte das vezes, leva as pessoas a pensarem que afinal de contas não se tratava de uma profunda história de amor. Todas as opções envolvem algum grau de sofrimento.
Embora La Cecla faça esta categorização, ele afirma: “Não há regras para viver ou amor ou a ruptura. O fim de um amor é também parte da história amorosa”. O momento da ruptura parece ser o momento avesso da paixão. Na base da idéia de viver a ruptura amorosa de maneira dolorosa, às vezes trágica, talvez exista a tentativa de recuperar a intensidade do momento do encontro inicial, da paixão, mesmo que de forma inversa.
Na maioria das vezes o mais difícil para quem se separa é saber o que fazer com a lembrança da felicidade que se sabe não ser mais possível – não com aquela pessoa, não daquele jeito, não como planejado. Em nossa sociedade, o mais comum é acreditar que a única forma de recuperá-la é lembrá-la com sofrimento, tristeza ou a saudade. Na hora da separação o amor é associado a fracasso, a morte.
O tempo da separação é uma estação, um período necessário para que as pessoas reflitam sobre o relacionamento, descubram um sentido, um propósito, para a ruptura. Este período de ruptura possivelmente durará o suficiente para que elas compreendam que viver o fim de um amor por vezes é parte da vida.
Por mais que desejemos que as pessoas das quais gostamos não sofram, que saiam logo dessa estação, não adianta apressar o rio, ele tem seu próprio curso. Minhas amigas estão se separando. Mesmo que a separação física já tenha acontecido ou esteja decidida, o processo da ruptura emocional pode estar apenas em uma etapa inicial.
Muitas vezes, quando alguém está sofrendo nos sentimos incomodados, impotentes. Rubem Alves – psicanalista, filósofo e poeta – escreveu: “Sabedoria é saber sofrer pelas razões certas. Sofrer pelas razões certas significa que estamos em contato com a realidade, que o corpo e a alma sentem as tristezas das perdas e que existe em nós o poder do amor”.
Segundo Rubem Alves, só não sofrem, quando para isso existem razões, aqueles que perderam a capacidade de amar. É o sofrimento que nos faz pensar. Pensamos para encontrar um jeito de fazer o sofrimento parar ou para dar um sentido ao sofrimento quando ele não pode ser evitado.
Em alguns momentos, este pensar precisa ser um ato solitário, em outros não. Ter alguém que nos escuta e nos acompanha nesta estação pode ser muito bom. De modo que sempre podemos deixar claro aos nossos amigos que sofrem, o quanto estamos dispostos a estar com eles, seja inverno ou verão. Sim, porque “É claro que o sol vai voltar amanhã”. Quando a gente esquece, poetas como Renato Russo usam sua arte para nos fazer recordar que haverá uma nova estação, repleta de possibilidades de vida, de amor.

Do baú - Controlar a raiva, trabalho de Hércules?

Retirado do baú - texto escrito em setembro de 2004 para publicação na Revista Destaque.



Foi uma cena da novela Celebridade - a briga entre a Maria Clara (Malu Mader) e a Laura(Cláudia Abreu) que me fez pensar sobre a raiva.
No dia seguinte ao da transmissão do episódio em que as duas brigaram, escutei várias vezes pessoas comentando: “Você viu a surra que a Maria Clara deu na Laura?”.
Será que o motivo de tal comoção seria o fato de que muitas pessoas em algum momento já tiveram vontade de dar uma surra como aquela em alguém?
É comum vermos pessoas nervosas, perdendo o controle e dando um “piti” nos mais diversos lugares – na fila do banco, no trânsito, nos restaurantes, no trabalho, na escola e na privacidade do lar. Como controlar a raiva e evitar o vexame e a culpa depois que o caldo já entornou?
Muitos psicólogos usam a história de Hércules para ilustrar o que ocorre nessa luta. O guerreiro tinha uma força prodigiosa e também um gênio explosivo e destruidor. Num dos seus acessos de raiva, Hércules, enfurecido, matou a mulher e os filhos. Foi então condenado pelos deuses a realizar doze trabalhos dificílimos.
O primeiro desses trabalhos foi a caçada ao Leão de Neméia. A fera amedrontava a população da vizinhança e não se podia fazer nada para matá-la, pois flechas, punhais e espadas não conseguiam penetrar a sua pele, que era invulnerável.
O leão morava numa gruta funda e escura. Ao aproximar-se, Hércules viu que espalhados pelo chão estavam pedaços de lanças e espadas de todos os tipos, quebrados pelo choque contra a pele indestrutível do animal. Hércules viu também os restos mortais de muitos guerreiros valorosos, que já tinham sido derrotados e devorados pelo monstro.
O herói aproximou-se da caverna e, quando o leão saiu e o atacou, Hércules não lutou contra ele, apenas abriu os braços e apertou-o tão fortemente que ele morreu sufocado. Hércules retirou a pele do leão e passou a usá-la em suas batalhas, como proteção. Como todas as histórias mitológicas, esta guarda um ensinamento.
O leão representa as forças agressivas e as necessidades instintivas que todos temos dentro de nós. Essas forças não podem ser destruídas porque fazem parte da nossa constituição psíquica. Mas elas podem destruir-nos, se a gente não souber lidar com elas.
Por baixo de cada demonstração de raiva, de agressividade, existe o medo. Uma mãe que tem raiva da filha que chega muito tarde em casa sem avisar onde estava. Será que essa mãe não teve medo de que a filha estivesse em perigo, se acidentasse, ou amassasse o carro justamente agora que ela está sem dinheiro?
controlar a raiva temos que identificar esse medo. Temos que fazer aquilo que Hércules fez com o leão – ir ao encontro dessas forças de braços abertos, reconhecendo-as como nossas. Se abraçarmos a raiva, entrando em contato com ela, podemos dominá-la usando nossa inteligência e nosso discernimento, colocando-a ao nosso favor, fazendo com que ela trabalhe para nós, como proteção, quando necessária.
Agora, se o “piti” já aconteceu, o jeito é mesmo pedir desculpas e procurar não perder a calma da próxima vez!