sexta-feira, 5 de junho de 2009

Do baú - Onde está sua felicidade?

Texto retirado do Baú - escrito em 27/11/2004 para publicação na Revista Destaque.







Na véspera do dia das crianças, na fila do caixa das Lojas Americanas, inevitavelmente, escutei um casal conversando. O marido perguntou: “Sabe qual é a Barbie mais cara que existe?”. A resposta veio em seguida, sem nem dar tempo para a esposa pensar: “É a Barbie divorciada, que vem com a casa, a cama, o armário, a cozinha, a piscina, o carro, o cavalo e até com o avião do Ken!”.
Não achei lá muita graça, mas a piada me fez pensar na Barbie. Ela é mesmo uma boneca diferente, parece que nunca está completa. Os fabricantes estão sempre lançando um novo “complemento”. E nem adianta comprar o novo objeto, logo haverá um outro a ser comprado. É como a cenoura na frente do burro... nunca será comida. Esta pitada de infelicidade que acompanha a Barbie é a regra fundamental da sociedade consumista: é preciso que as pessoas não se sintam felizes com o que têm para que trabalhem e comprem aquilo que não têm.
Mãe, compra pra mim... Eu quero tanto!” E lá estamos nós, pais e filhos, presos numa arapuca consumista. Em uma antiga propaganda, um garotinho sorridente mostrava a tesoura do Mickey em sua mão e falava a um outro, que estava triste e cabisbaixo: “Eu tenho, você não tem!”. Desde pequenos somos induzidos a pensar que estamos infelizes porque não temos algo. Se tivéssemos, seríamos felizes. O jeito de ser feliz é comprando.
A verdade é que as crianças pequenas são capazes de se alegrar com brinquedos que não são como a Barbie. Elas se alegram jogando dominó, empinando pipa, fazendo bolinhas de sabão ou comidinhas de faz-de-conta. As crianças pequenas divertem-se com coisas simples porque para elas tudo é espantoso: uma nuvem, um ovo, uma pedra, uma minhoca. Elas têm os olhos dotados daquela qualidade que para os gregos era o início do pensamento: a capacidade de se assombrar diante do banal. Elas vêem coisas que nossos olhos adultos já não vêem.
A saída para a arapuca do consumismo talvez seja essa – voltar a ver o mundo com olhos de criança que ainda não pede a Barbie, colocar nossa felicidade bem ao alcance das nossas mãos. Acho que era isso que a Adélia Prado queria quando rezou: “Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande...”.
Nietzsche sugeriu que “a maturidade de um homem é encontrar de novo a seriedade que tinha quando criança, brincando”. O centro da filosofia de Nietzsche é o retorno à infância. Segundo ele, nossa trajetória começa como camelos, animais de carga, que obedecem à voz do dono. Depois, passamos por uma primeira metamorfose, o camelo transforma-se em leão, guerreiro, dono de sua vontade. Por fim, uma última mudança ocorre: para que a vontade do leão se realize, ele se transforma em criança, que só faz brincar.
São muitos os estudos da psicologia das crianças. Estudamos as crianças para ensiná-las a viver no mundo adulto. É uma pena que não existam estudos com o objetivo contrário: ensinar aos adultos a maneira de ser das crianças, que colocam sua felicidade no ser e no fazer, não no ter.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Nossa Senhora do Rosário de Fátima

Mês de maio. Êis que, andando de carro pela asa sul, à caminho da Aliança Francesa, encontro inspiração para voltar a escrever.
De repente lembrei que minha mãe era devota de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Devota, devota mesmo.
Quer saber o quanto? Tenho irmãs gêmeas que se chamam: Maria Fátima e Fátima Maria.

E sabe o que mais? Por causa das crianças que viram a Santa na Cova da Iria, tenho outra irmã que se chama Maria Lúcia, e, dizem, eu iria me chamar Francisco, se tivesse nascido um menino, e só escapei de me chamar Jacinta por obra, graça, intervenção e insistência de meu pai.
Minha irmã, Maria Fátima, esteve em Portugal anos atrás e me contou que ficou muito emocionada quando entrou no Santuário de Fátima e leu em uma placa: “Faça silêncio, Nossa Senhora esteve aqui!”.
Na minha infância, Nossa Senhora de Fátima estava mesmo era bem ali. Nasci na 308 sul, ao lado da Igrejinha. Lá eu fui batizada, e por lá aprendi a andar, tocando nos azulejos de Athos Bulcão, mexendo nos tocos de vela que as pessoas acendiam atrás da igreja, e ouvindo meu pai falar mal do padre que mandou passar tinta em cima das bandeirolas do Volpi.
A igrejinha de Nossa Senhora de Fátima foi construída a mando de Dona Sarah Kubitschek, para pagar uma promessa e, nos bancos de madeira daquela igreja vi também minha mãe fazer promessas e muitas orações. Meus pés ficavam balançando, sem conseguir encostar no chão. O tempo que minha mãe levava para rezar (o rosário ?) era uma eternidade para alguém tão inquieta como eu com cinco ou seis anos de idade.
Um dia, quando eu já era grande, minha mãe me disse que naqueles bancos, em certa ocasião, ela teve uma espécie de visão. Ela me contou que estava de cabeça baixa, rezando e chorando. Um padre tocou o braço dela e perguntou: “Filha, onde fica o confessionário?”. Ela indicou o lugar, imaginou que ele estava à procura do pároco, abaixou novamente a cabeça e continuou rezando, pedindo à Santa que lhe mandasse um sinal, que lhe indicasse um caminho. Passado algum tempo, ela se deu conta de que não viu mais o padre, resolveu perguntar a uma freira que estava na sacristia se ela o tinha visto. A freira foi categórica: “Não entrou ninguém na igreja esta manhã, só estamos nós duas aqui!”. Minha mãe falou que naquele momento teve certeza que a Santa tinha “mandado o padre”. O propósito, ela acreditava, tinha sido fazê-la refletir sobre o “caminho” do confessionário.
Na manhã do dia do meu casamento, pensando nessa história, voltei à Igrejinha para me confessar. Há anos eu não entrava lá. Tudo estava bem diferente. Era de se esperar que a igreja me parecesse muito pequena, mas a sensação que tive foi a de que eu é que parecia não caber mais nela... Confessei-me, sentei-me nos bancos e fiquei um bom tempo chorando... umas lágrimas grossas, pesadas... me senti purificada e, em fim, preparada para receber o sacramento do matrimônio e para começar uma nova vida.
Casei na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, porque foi lá que rezei durante todos os anos de colégio, pelos mais diversos motivos. Sempre que alguém que eu amo adoece, eu corro a fazer pedidos para Santa Rita, e, também foi a ela que eu recorri quando queria passar em um concurso para o qual só havia uma vaga (era mesmo quase impossível, convenhamos!). Nossa Senhora Aparecida foi minha companhia constante durante a gravidez do Mateus, e ainda vou levá-lo ao Santuário em Aparecida para marcar minha gratidão.
Hoje, porém, estou decidida a fazer como Dona Sarah e minha mãe, Maria Assumção - vou recorrer à Virgem de Fátima, vou pedir que, para o bem de minha irmã Lúcia e de sua família, que se preparam para começar uma nova vida, que a Santa os fortaleça, guie minha irmã e a proteja nos negócios que viabilizarão a compra do lugar onde ela irá fazer seu novo lar. Nossa Senhora do Rosário de Fátima, rogai por nós, Marias, e filhas de Marias, Marias de Fátima e Marias da Assumção. Amém!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Você tem fome de que?




















"Um pedaço de pão comido em paz é melhor do que um banquete comido com ansiedade".

Esopo ( 620 a.C. - 560 a.C.), escritor grego.

Muitas vezes escutamos pessoas que acabaram de ouvir um desaforo dizer com muita raiva: “Ah não, isso não, isso eu não engulo!”. É também comum falarmos: “Isso eu já digeri” – quando nos referimos ao fato de termos assimilado uma idéia ou aceitado uma situação. O que estamos expressando é, na verdade, o entendimento de que, emocionalmente - somos comedores de mundo.

Não é de se admirar que alimentação seja algo tão carregado de emoção. Além de pão, “comemos” também toda uma gama de impressões que resultam das nossas experiências cotidianas. Essas experiências têm que ser digeridas e assimiladas em um processo que envolve o desejo e a receptividade – exatamente como quando nos alimentamos. Misturamos nossas experiências, nossas emoções e nossa comida. A primeira sensação prazerosa que temos na vida é na amamentação, junto ao seio materno, e por toda a vida, para celebrar nos reunimos em volta de uma mesa com comida e bebida. É, então, compreensível a busca de satisfação afetiva na alimentação como uma forma de obter uma gratificação substituta.
Fome é necessidade, avidez, vontade de ter, ânsia ardente. Os psicanalistas afirmam que em diferentes graus todos temos nossas fixações orais, e nossas compulsivas preferências alimentares revelam sempre carências afetivas. O desejo por chocolate, caldos quentes, amido ou açúcar é interpretado como – busca pelo afeto sintético – sintomático dos estados depressivos e, até certo ponto, considerado uma tentativa inadequada de amenizar o sofrimento. É uma tentativa inadequada porque toda forma substituta de satisfação é sempre uma garantia de frustração.
O uso freqüente do alimento como recompensa afetiva acaba por acrescentar ao descontentamento psicológico uma sobrecarga de substâncias incompatíveis com as reais necessidades nutricionais do organismo. Em função dos seus nutrientes, e da forma como interagem quimicamente no organismo, certos alimentos e suas combinações podem ser de grande auxílio ou, por outro lado, totalmente indesejáveis nas perturbações tanto do corpo quanto da alma.
Na busca por saúde muitas vezes dizemos: “Eu sei o que tenho que fazer, mas não tenho a energia necessária...”. A função da alimentação – além de nutrir e manter as atividades do corpo físico – é nos dar energia para pensarmos, estudarmos, enfrentarmos situações de estresse. Mudar exige consciência, determinação e, sobretudo, uma grande quantidade de energia. Se toda a energia de que dispomos encontra-se comprometida com a estafante função de eliminar toda uma sobrecarga de toxinas resultantes de uma má alimentação, as possibilidades de não conseguirmos atingir nossos objetivos aumentam consideravelmente.
Se você se sente sem fome de viver ou ansioso, buscar a ajuda de um nutricionista pode ser um passo importante. Manter o intestino funcionando em ordem é essencial, é nele que a maior parte da serotonina, neurotransmissor responsável pela sensação de bem-estar, é produzida.
O adequado tratamento de distúrbios físicos e transtornos psicológicos requerem acompanhamento médico, psicológico, uma alimentação apropriada e a realização de atividades físicas gratificantes. Se necessário, procure ajuda. Afinal: “a gente não quer só comida, a gente quer a vida como a vida quer”(Marisa Monte), né não?

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Cabe na mala?


Meu filho tem um livrinho de história que eu adoro, é o “Cabe na mala?” da Ana Maria Machado. O cavalo e a vaca vão à cidade passear, eles encontram muitas coisas interessantes em uma feira, mas na hora de colocar tudo na mala para levar de volta pra casa precisaram usar a inteligência. Eu gosto da história porque sou daquelas que adora uma comprinha em viagem e por isso sempre tenho que me perguntar: Cabe na mala?

Algumas pessoas viajam com grandes malas, carregam até a bagagem alheia e nem se importam. Eu me divirto com as histórias que começam assim: “já que você está indo pra... será que você podia...?”. Todo mundo tem uma história própria ou de algum outro amigo sobre encomendas de viagem que rende boas gargalhadas em qualquer roda de conversa. Embrulhos estranhos que fazem você passar por terrorista, um berimbau pro sobrinho que começou a fazer capoeira ontem, um isopor cheio de camarões ou caranguejos que faz com que as pessoas tapem o nariz ao passar por você - quem não carregou uma encomenda “bomba” que atire o primeiro pacote!

Eu tenho uma grande amiga e companheira de viagem, que não se importa nem um pouco de trazer encomendas para outras amigas quando viaja. Cada viagem com ela era sempre a mesma coisa, entravamos em uma grande loja ou shopping e ela tirava a tal listinha das encomendas das “colegas de trabalho” da bolsa. Eu, que não me responsabilizava nem pelas encomendas da minha mãe (que muitas vezes era quem estava custeando minha viagem) ficava pasma! Gente, aquilo não era uma lista de compras, era mais um rol de tarefas de uma gincana. As “colegas de trabalho” pediam coisas do tipo: o baton nº 45 da Lâncome. Detalhe, a Lâncome já tinha parado de numerar seus batons há uns três anos, assim, a solicitação vinha com uma observação - era importante verificar com a vendedora se o antigo nº 45 era mesmo, agora, o red cherry ou o rouge cerise(o que dependia do fato do tal batom ter sido produzido para comercialização no mercado americano ou europeu). Na lista de compras das “colegas” da minha amiga tinham pedidos inexplicáveis. Gente, pra quê uma pessoa precisa de um creme Nívea importado? Não, não era qualquer creme Nívea importado - tinha que ser o produzido na Alemanha! Sim, minha amiga recebia instruções precisas, determinando que era importante que ela virasse a latinha ao contrário e verificasse a origem do creme, porque o produzido em outros países (que não Germany) não servia!Tá, eu tinha ciúme dessa minha amiga com as tais “colegas de trabalho” (parece coisa do Sílvio Santos, né?), mas, quem é que me explica de que modo o creme feito na Alemanha é melhor, Santo Deus? Será que ele é mais grosso para ter melhor efeito no ressecamento da pele causado pelo frio e por isso serve melhor ao clima desértico de Brasília?
Algumas das tais “colegas” tinham a finesse, a delicatesse, de dar uma boa quantidade de dólares a ser usada para as despesas, mas outras perguntavam se minha amiga poderia pagar no cartão de crédito que depois elas acertariam! Gente, tem base um negócio desses? Minha amiga elegantemente não dava (ou não demonstrava dar) a menor importância a esse detalhe. Não se preocupava com relação ao dinheiro, mas ficava tensa por outro motivo. Como é que ela ia fazer se encontrasse as encomendas de Fulana e Beltrana e não a da Ciclana? Vocês não imaginam... era lápis de olho à prova d’água (pra durar da festa do casamento até a das bodas de ouro?), meia fina que não rasgava, esmalte azul escuro (uma coisa horrível, para ser usado em festa de Halloween - parece que a caneta Bic vazou!), curvador de cílios (outro item que só servia de fosse o alemão), e os perfumes então?A vendedora da Séphora (aquela dos Champs-Élysées!) dava até um gemidinho de satisfação quando minha amiga começava a encher a cestinha de compras.

A melhor história de encomenda que já ouvi, no entanto, não é minha (nem na viagem eu estava), é de outra amiga e também grande companheira de viagem. A encomenda foi feita a ela de boca, ela não anotou. A amiga disse: “Bem, será que você traz pra mim um perfume? Acho que se chama: Per Elise?!”. Em todas as perfumarias e lojas especializadas em maquiagem pelas quais passou (centas!!!) e em todos os free-shops dos aeroportos em que parou, minha amiga procurava o tal do “Per Elise”. Lá pelas tantas, essa minha amiga imaginou que o nome do perfume podia ser: Pour Elise – por causa da música do Beethoven. Muitíssimo bem humorada ela continuou a busca. Imaginem que quando as vendedoras faziam aquela cara de “Nunca ouvi falar!” ou de “Essa brasileira está falando esperanto?” – ela não dava a mínima, insistia, pronunciava de outro jeito, chegou, até a cantarolar o “tã nã nã nã nã” da música do Beethoven pra uma vendedora francesa. Quando Madame fez biquinho e mandou um: “Je suis desolée!”, minha amiga correu pela loja, agarrou uma caixinha de música, abriu a caixinha e - Voilá! Pour Elise! Nada feito! Ninguém nunca fabricou um perfume em homenagem à música de Beethoven. Na chegada ao Brasil mil desculpas e o testemunho das outras viajantes acerca do empenho da outra em procurar a encomenda. Meses depois, em uma perfumaria no shopping, fazendo hora pra sessão de cinema, a autora da encomenda, pega um vidro de perfume na prateleira e mostra a minha amiga – “Olha aqui oh! Aqui no Brasil em qualquer lojinha tem o Per Elise!”. No rótulo do perfume, o mistério desvendado – Perry Ellis!

O mundo globalizado facilitou a vida de quem quer algo importado, as encomendas hoje em dia já não são tantas e, no meu caso, nem as viagens, mas o que sempre cabe na mala são as grandes amizades e as boas recordações não é mesmo?

terça-feira, 22 de julho de 2008

O que tanto ele pensa enquanto me escuta?


























"Aos doentes tenha por hábito duas coisas - ajudar, ou pelo menos não produzir danos."

Hipócrates

Imagine ser atendido por um médico muitíssimo competente, mas totalmente antipático. Inusitado? Com certeza, mas um grande sucesso na ficção. A série House é líder de audiência na TV por assinatura do Brasil desde que estreou em abril de 2005. O protagonista é o médico Dr. Gregory House, o ator Hugh Laurie. A cada episódio ele e sua equipe trabalham para desvendar os sintomas de seus pacientes. O médico diz o que pensa, é desprovido de boas maneiras e totalmente anti-social, mas seu raciocínio nada convencional resulta em diagnósticos brilhantes e, no fim do dia, todos tiram o chapéu para o antipático Dr. House.
Sou fã da série e outro dia estava refletindo com colegas da área de saúde se, seria possível, um médico, um psicólogo, um odontologista, um enfermeiro, um nutricionista, qualquer outro profissional de saúde - antipático - sobreviver profissionalmente nos dias de hoje.
Concluímos que o conceito chave para a boa relação com aqueles com quem trabalhamos, não é o de SIMPATIA e sim o de EMPATIA. O essencial é que o profissional seja empático.
Muitas vezes se fala que se tem empatia por alguém, usando a palavra empatia como se fosse o mesmo que simpatia. Simpatia e empatia são duas coisas diferentes. Empatia é a capacidade de sentir como seria estar na situação em que outra pessoa está. É poder se colocar no lugar de outra pessoa e vivenciar o sentimento que aquela outra pessoa tem. Existem pessoas, por exemplo, que se sensibilizam com os problemas de outras. Não é preciso que tenham passado exatamente pela mesma situação para que compreendam o que os outras estão sentindo. Vemos isso a toda hora, em diversos tipos de relações humanas, quando um homem é capaz de compreender o sentimento de uma mulher, quando um jovem é capaz de compreender o que sente um idoso e quando uma pessoa saudável consegue compreender a dor de alguém doente. Essas pessoas têm capacidade empática, e é essa capacidade que faz com que elas compreendam o sofrimento alheio.
Colocar-se no lugar do outro, ser empático com o outro, é uma qualidade que enriquece as relações e aproxima as pessoas, possibilitando a formação de vínculo. O vínculo é o laço que une a pessoa que sofre e aquele que se propõe a acolhê-la, seja um familiar, um amigo, o recepcionista do serviço de saúde ou o profissional que o atende. Sem este laço não é possível uma intervenção eficaz. A formação do vínculo pressupõe a existência de respeito e confiança - de ambas as partes!
Se você tem curiosidade em saber o que tanto seu médico, seu odontogista, seu terapeuta, ou seu nutricionista pensam enquanto você fala, saiba: realmente existem algumas coisas que eles gostariam de poder lhe dizer, muitas delas a la Dr. House:
1) Não enrole, diga logo a que veio!
Vá preparado para a consulta, tenha claro – na mente ou em um papel – o que quer compartilhar com o profissional. Seja honesto, franco, direto. Para fazer um bom diagnóstico e tomar decisões, o profissional precisa ter informações fidedignas. Não fez a dieta, não tomou o remédio – desembuche! Se você não for sincero a vítima vai ser você!
2) Não avacalhe a minha agenda!
Gentileza gera gentileza - se você for faltar, ou atrasar, avise com antecedência. Caso você tenha algum problema de saúde, não acompanhe a consulta de outra pessoa, marque uma só para você.
3)Não, eu não posso só deixar uma receita com a secretária!
O médico é seu parceiro, co-responsável no seu tratamento - não tome e nem deixe de tomar remédios por conta própria, volte para uma consulta de reavaliação.

Farmacêutico não é traficante!O médico também não! Eles não são fornecedores de drogas! Se é assim que você os está vendo, atenção! Quem é você nesta relação?
4) Não, eu não posso ler as páginas que você imprimiu da internet!
Se você gosta de pesquisar na internet, peça ao profissional que lhe indique sites confiáveis. Se for pesquisar por conta própria, verifique se a fonte de informações tem credibilidade. Tire suas dúvidas com o profissional que o acompanha e não em salas de bate-papo on-line.
5)Não, eu não sei se temos uma ouvidoria ou uma caixinha de reclamações por aqui!.
Não gostou de alguma coisa? Gostaria que algo fosse diferente? Diga a quem o atendeu para que tudo seja esclarecido e resolvido de modo rápido e direto.

6)Aqui não é a sala de testes para escola de atores da Globo! Você não quer tratamento, quer só quer um atestado, já saquei!
Se você não quer se tratar, não perca seu tempo, nem o do profissional que o atende.Não banque o ator no consultório, isso é deprimente!

Vamos caprichar nos nossos relacionamentos, porque a verdade é que na vida real gente antipática ou pouco empática, seja profissional de saúde ou paciente, não tem a menor graça!

Totalmente Dona Encrenca esse post, hein!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

E aí? Quer pagar quanto?

















Nos jornais eletrônicos de domingo, a insistente e irritante pergunta do moço das Casas Bahia perdeu todo o sentido. A questão do dia não era quanto se queria pagar, era se o que se queria comprar estava ou não à venda. (Mudando das Casas Bahia para o Mastercard) O que rolava nas manchetes de ontem era: KAKÁ NÃO TEM PREÇO!

“Kaká não tem preço. Posso dizer que o Chelsea declarou seu interesse por ele, mas eu lhes disse que não temos intenção de vendê-lo. Acabei com tudo antes até de que chegasse qualquer oferta, portanto não sei se eles realmente fariam uma proposta de 94 milhões de euros (como havia sido especulado pela imprensa britânica)".
A afirmação era de Adriano Galliani, vice-presidente do Milan. Ele disse isso ao jornal italiano La Gazzetta dello Sport e a notícia viajou pelo planeta, instantes depois, como deve ser, nessa World Wide Web.
Fiquei por uns minutos olhando a foto daquele moço bonito, cuja imagem vale mais do que ouro. Kaká é mesmo o bom menino - não há como negar, bom, não, né? Ótimo! Ele - antes de mais nada - joga um bolão! Kaká não se esquece de que é atleta quando está de férias, não se mete em escândalos, não desrespeita os treinadores e dirigentes, não implica com os coleguinhas. Kaká é mesmo tudo de bom e todo mundo, literalmente, já sabe disso. Lembro de quando ele foi a TV falar que caso a violência nos estádios não parasse ele iria pra casa!Muito bonitinho...
Menino de Deus - Kaká é tão centrado, que já tem até plano para aposentadoria. Li em algum lugar que ele vai estudar teologia, quer ser Pastor. Só digo uma coisa: Jesus, Te cuida!
Bom, eu li a matéria e fiquei pensando: o que significa não ter preço para uma organização? para uma empresa? para um time de futebol? O que é isso que 94 milhões de euros não podem comprar?
Gente, não pode ser só o $$$$$ que ele faz entrar no clube, não pode ser só os títulos que ele dará ao Milan, não pode ser só essa possibilidade de identificação que faz o torcedor não saber se torce pelo Milan ou pelo Kaká. Tem que ter algo mais! Sei lá eu o que é, mas que tem, tem.
Tá, “o cemitério está cheio de insubstituíveis”, mas e você? Sabe se , na sua equipe de trabalho, você tem esse algo mais que o dinheiro não pode pagar?

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Entretantos(as) - Minha irmã



No sábado, 5 de julho, véspera do aniversário em que Frida Kahlo faria 101 anos, fui ver a exposição Entretantos (as) dos formando em artes plásticas da UnB. Por quê? Minha irmã Fátima Meira fez-se artista plástica ao longo da vida, mas quis diplomar-se e assim fez. Fui lá prestigiá-la e, como tudo que me causa impacto acaba virando um post, lá vai:
A instalação Tempus Fugit (que quer dizer o tempo foge, a vida é breve) montada por ela para a exposição Entretanto(as) é, à primeira vista, um trabalho surrealista, mas - não querendo incorrer no mesmo erro de André Breton – já reconheço que não é.

Em 1938, Andre Breton qualificou a obra de Frida de surrealista em um ensaio que escreveu para a exposição dela na galeria Julien Levy de Nova Iorque. Frida, mais tarde declarou: "pensavam que eu era uma surrealista, mas eu não era. Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade".
Diante da instalação de minha irmã percebi logo, não, não é sonho - é realidade. Em comum com a obra de Frida - a sensação de desconforto, de perturbação. A quantidade de informações em um pequeno espaço reforça a sensação. O primeiro pensamento foi : “Nossa, é muito!”. Como todas as acepções que o MUITO tem. O que tem de incomum? Ele usou só o preto, o branco e o raro e gritante vermelho sangue. Não pintou. Mas cortou, colou, filmou, fotografou, costurou. Ah, pintou sim, e muito. Bordou, tricotou e, pode-se dizer que esculpiu, também.
Por onde eu começo essa conversa? Pela cadeira de balanço, sem dúvida.
Cadeira de balanço – objeto que nos remete a aconchego e acolhimento, é isso , não é? Não é. Repleta de lâmpadas, subtamente a cadeira de Fátima se acende e nos traz uma sensação diametralmente oposta – a de desconforto, de agonia. As lembranças que de início eram de cadeiras de amamentar, de cochilar, de ler, de ver TV – de repente passam a ser de cadeiras de rodas, cadeiras de carro que pegam fogo, vidros que se quebram, explodem, em acidentes ou por causa de tiros. Sensações, pensamentos e emoções completamente opostos atados em um mesmo objeto no espaço de tempo exato de um minuto.
Sim, as lâmpadas ficam acesas por exatos 60 segundos. Tempo em que você dirige seu olhar para outro objeto - uma clepsidra. A clepsidra é “tipo assim” uma ampulheta de líquído. Sabe qualé? Um relógio. Na instalação o líquido é vermelho e passa por entre recipientes de soro. Agora, o primeiro pensamento foi algo meio assim Arnaldo Antunes: “O pulso ainda pulsa! O corpo ainda é pouco.”
Para mim o momento foi de agonia total. Explico: Quando minha mãe ficava internada uma das coisas mais perturbadoras para mim era vigiar o tal do soro. As veias delas eram muito finas, era difícil acertá-las. Perder uma veia era pior que perder um pênalti em final de copa do mundo, muito pior. Tínhamos que ficar de olho no soro, contar as gotas, correr atrás das enfermeiras, seduzi-las para que não deixassem o soro acabar. Até hoje, quando minha vida não está fluindo, sonho com o soro entupido.
Meu filho Mateus foi à exposição comigo e ele pensa que a tia é uma extensão do corpo dele e por isso ele pensa que o que é da tia é dele, e aí vocês já virão né? Ele mexeu na tal da clepsidra e a merda (minha mãe também fez uma colonostomia, se é que vocês me entendem) do líquido vermelho espalhou no chão. No chão não, no tabuleiro de xadrez.
Sim, o chão em que a instalação está montada é quadriculado, preto e branco. Sacou? Outra coisa muito louca. O xadrez me lembra a Alice perdida no País das Maravilhas. Quando o líquido caiu no chão eu ouvi a rainha gritando: “Cortem as cabeças! Cortem as cabeças!”.Gente, não foi legal!Tive enxaqueca no domingo e na terça feira!
O livro e o filme – Alice no País das Maravilhas – têm símbolos muito fortes, alguns deles presentes na instalação. Desde pequena, eu tenho sonhos com personagens do filme. Quando estou sendo pressionada a decidir alguma coisa, ou quando alguém esta me colocando contra a parede, sonho com aquela lagarta, fumando narguilé, jogando fumaça na minha cara e lerdamente falando: “Quem és tu?”. A instalação toda parece nos perguntar isso.
O espaço em que Tempus Fugit Fugit foi montada é louco. Você entra por um estreito canal (vaginal?)e chega a uma sala escura, uma espécie de útero, bem lá no fundo está a instalação. A realidade é louca. Quem não consegue dar um sentido a realidade acaba louco.
Uma boneca com um daqueles colares “protetores” que impedem que os cachorros fiquem lambendo seus rabos operados é um dos objetos marcantes na instalação - o ID aprisionado. Novamente o encontro dos opostos: o duro e o mole, o prazer e a dor. O lúdico e o lúcido estão lá enlouquecidos e adoecidos.
Mais uma coisa louca, outro dos meus sonhos, este mais freqüente, foi parar em um vídeo, dentro da instalação. Sei lá eu como! (Acho até que sei.) Quando eu ando acelerada, querendo fazer mil coisas ao mesmo tempo, tenho sonhos em preto e branco, onde vez por outra, aparece o coelho do filme Alice no País das Maravilhas correndo, colorido, olhando o relógio e falando: “É tarde, é tarde, é tarde, é tarde, é tarde!”.
Sim é isso, tem um vídeo dentro da instalação. Dentro de um oratório que mistura sagrado e profano, vida e morte, moderno e antigo, passado e futuro - rola um vídeo. No vídeo estão memórias, lembranças, coisas que o vento leva, que a faca corta – tudo em preto e branco, mas, de vez em quando aparece o coelho da Alice, colorido, correndo e falando: “é tarde, é tarde, é tarde, é tarde, é tarde, é tarde”.
Li no Jornal que a instalação da minha irmã era autobiográfica. Bem, se existe uma peça evidentemente autobiográfica na instalação é um vestido. É um vestido simples, leve, branco, (de uma moça nascida no interior do Ceará), que vai sendo marcado pela vida, pelas pessoas que por ela passam. O vestido é sobrecarregado pelas chaves das portas das casas nas quais morou, das gavetas de mesas nas quais trabalhou. Poderia ser o vestido da noiva do Barba Azul, daquela que não podia olhar pelo buraco da fechadura, mas se arriscou. No cabideiro, ao lado do vestido, repousa uma máscara, daquela que fantasia – a figurinista.
A instalação tem outras peças igualmente fortes e diferentemente perturbadoras (o cabideiro em que o vestido está pendurado, não é bem, um cabideiro...), cada objeto é único, mas magicamente tem todo o conteúdo da exposição em si mesmo.
É um retrato de família, ou melhor, de famílias...

Entretanto(as) estará aberta até dia 12 – sábado – meio dia - no Espaço Piloto da UnB – Prédio da Artes Cênicas (aquele com os azulejos do Athos Bulcão). Dona Encrenca recomenda aos aventureiros!