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segunda-feira, 24 de março de 2008

MULHER DE “CATIGURIA”

















Em agosto do ano passado a Vogue brasileira trouxe três ensaios fotográficos com Camila Pitanga. Não era pra menos, naquela época ela e Wagner Moura carregavam a novela “Paraíso Tropical” nas costas.
Sua personagem, Bebel, era a vilã mais querida do Brasil. Poucas atrizes conseguiriam fazer isso. Camila fez. Bebel não era como outros personagens de novela, ela era complexa, humana, cheia de sutilezas e nuances. Sua prostituta era admirada, copiada e, no máximo, considerada amoral.
Na Vogue (348, agosto de 2007)Paulo Vainer e Verônica Casetta a fotografaram em um playground gráfico, Gui Paganini no corredor do Copacabana Palace e Bob Wolfenson fez suas fotos na Restinga de Marambaia – Camila linda e loira (mesmo!!!), com um vestidinho estampado drapeado de André Lima (R$8.750,00) arrastando na areia (Jesus, segura!). Textos do cineasta Jorge Furtado, de Millor Fernandes e Antônia Pellegrino costuraram a edição. Tudo de bom. Um deles termina seu texto assim: “Camila é, como diria Noel rosa, ‘coisa nossa’, uma personagem de um Brasil que deu, e dá certo”.
http://rgvogue.ig.com.br/making_of/2007/08/11/camila_para_vogue_2_959624.html

Minha admiração por Camila não começou e nem terminou com a novela, muito menos com o ensaio da Vogue. Camila tem o que eu não tenho, é o que eu não sou. Ela tem aquela postura de bailarina, conquistada em aulas de ioga, a fala mansa, rouca, aquela cara de quem acordou bem e está de bom humor. Ela é toda boa! Só a vi na TV, mas reparem, ela dá entrevistas com as mãos postas... Um jeito feminino que não existe sobrando por aí.
Segunda–feira passada estava eu zapeando quando me deparo com Camila no GNT dominando a cozinha do Claude Troisgros. Gente a mulher está grávida, o rosto arredondou levemente. Ela conseguiu ficar ainda mais bonita. Usava um vestidinho de seda estampado lindíssimo e dava ordens ao Claude: “Corta a berinjela em cubinhos!” “Vai pra lá!” “Vem pra cá!”. Ela estava preparando um prato tailandês. É... ela fez uma viagem à Tailândia e aproveitou pra fazer um curso de culinária de dois dias. O prato escolhido foi camarão ao leite de coco e curry verde. Vocês acham que ela chegou lá com o curry pronto? Não, fez na hora. Pilãozinho na mão, mandou ver. Coube ao Renato Machado o desafio de harmonizar e ele escolheu três vinhos: dois australianos e um francês. Camila deu outro show, paladar apurado compreendeu as explicações de Renato Machado e “traduziu” a experiência de saborear um vinho que deixa na boca uma sensação compatível com a do prato.

http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM803054-7822-CAMILA+PITANGA+NO+MENU+CONFIANCA,00.html

Desliguei a TV babando e suspirei desconsolada com a impossibilidade de sentir o cheirinho do curry, da pimenta, dos camarões boiando no leite de coco, da Camila...
Cheia de inveja racionalizei: “Ela é enteada da Benedita...nenhuma vida é perfeita!” – e fui dormir.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Passagem
























Lá se vai 2007...
Conheço gente focada no futuro. Pessoas que esperando o que está por vir, primeiro pensam: “Ôpa! Lá vem 2008!”.
Eu não. Primeiro tenho que me desapegar de 2007, para só depois entrar com os dois pés em 2008.
Fazer o quê? Sou uma pessoa apegada. Para vocês terem uma idéia: uma vez sonhei que morria e não queria sair do meu corpo...
Se meu filho vai dormir na casa da tia, todo feliz da vida, eu passo a noite rolando de um lado a outro da cama, arrependida: “Por que é que eu fui deixar?”.
Eu estou tentando melhorar... Tinha uma bota que estava comigo há mais de dez anos. Todo inverno eu a levava ao mesmo sapateiro e pedia para ele dar um geral nela. Em 2007 ele me disse: “Acho que está na hora da senhora dizer adeus a essa bota.” Insisti, pedi para ele fazer o que pudesse pela bota, que pensasse nela como uma espécie de paciente na UTI. Quando ele me entregou a bota em uma sacola, eu nem abri. Doei imediatamente. Mas, não sem sofrimento.
Pensem numa mulher brava – sou eu se minhas unhas estão lindas e maravilhosas e eu quebro uma delas.
Não era pra eu ser assim. Já perdi pai, mãe, irmã mais velha, meu melhor amigo.
Mas a verdade é que eu sou.
Por essas e outras, deixar 2007 para trás não vai ser fácil.
Meu marido disse que 2007 será lembrado como “o ano em que assinamos o contrato” (com a Via Engenharia). Penso que vou lembrar dele como o ano em que entrei na sala 32 do Museu Thyssen- Bornemisza, ou o ano em que visitei a Igreja da Sagrada Família e me apaixonei por Gaudi.
Na minha retrospectiva, 2007 será “o ano em que o Mateus aprendeu a ler”, mas bem que podia ser “o ano em que meu sobrinho-neto, o Paulo Rubem, nasceu”. E como esquecer que “2007 foi o ano em que meu sobrinho Erich entrou na UnB”?
Em 2007 eu comprei meu primeiro carro automático... Fiquei 12 dias de pernas pra cima na ilha do Ubaldo... Meu marido foi promovido, virou assessor...
Este ano (com “t” mesmo – não estou dizendo que sou apegada?) fiz novos amigos e criei Dona Encrenca para ficar mais perto dos velhos amigos.
Está sendo um ano bom...
Não é fácil dizer adeus ao que é bom, e às vezes, dizer adeus ao que é ruim também é difícil. Porém, é preciso saber a hora de deixar as coisas e as pessoas irem, seguirem seu caminho. Se nos agarramos a algo/alguém por mais tempo do que devemos travamos o fluxo da vida. Como um leito de rio indevidamente represado, a energia vital que não segue seu rumo, também causa estragos, sofrimento.
Em sociedade criamos rituais para marcar as passagens - o parto, o batizado, o aniversário, o vestibular, o casamento, a assinatura do contrato de compra de um imóvel ou dos papéis do divórcio, o enterro. O reveillon é um mais um desses rituais de passagem.
Cada um de nós, entretanto, tem seu jeito próprio de passar por esses rituais, cada um tem seu modo de dizer adeus.
Por mais que por vezes não saibamos como dizer o tal adeus, ou como seguir adiante sem falar nada, a vida acaba nos colocando na direção certa. Como um bebê que está no útero da mãe e de repente se sente empurrado para fora, somos impulsionados à mudança. Não sem dor, não sem esforço, de algum modo chega a hora do desapego, o momento em que percebemos que não dá mais pra segurar, temos que dizer: “Se tem que ser, então assim seja!”

Car@s amig@s, que assim seja! Que venha 2008!
Desejo a todos um ano de muita saúde, prosperidade e cheio de boas surpresas!



Este post é para minha cunhada - a Branca. Querida, o inverno vai passar e apagar a cicatriz!



Não aprendi dizer adeus
Leandro & Leonardo
Composição: Joel Marques

Não aprendi dizer adeus
Não sei se vou me acostumar
Olhando assim nos olhos teus
Sei que vai ficar nos meus
A marca desse olhar
Não tenho nada pra dizer
Só o silêncio vai falar por mim
Eu sei guardar a minha dor
Apesar de tanto amor vai ser
Melhor assim
Não aprendi dizer adeus mas
Tenho que aceitar que amores
Vem e vão são aves de
Verão
Se tens que me deixar que seja
Então feliz
Não aprendi dizer adeus
Mas deixo você ir sem lágrimas
No olhar, se adeus me machucar
O inverno vai passar, e apaga a cicatriz.(bis)



A foto que ilustra este post é a passagem megalítica de Knowth - condado de Meath na costa do leste da Irlanda.

domingo, 18 de novembro de 2007

Na faixa

Conceição Freitas mandou ver na coluna Crônicas da Cidade no Correio nesse domingo. Ela apontou “Dez Mentiras” sobre Brasília que todo mundo (de lá/de fora) gosta de dizer. Começou com a famosa frase: “Em Brasília só tem corrupto!”, seguiu separando o joio do trigo, explicando a diferença entre Oscar Niemeyer e Lúcio Costa e concluiu mostrando que faz tempo que Brasília deixou de ser setorizada.
Gostei D+.
Quem é assinante pode conferir no site do Correio:
http://www2.correioweb.com.br/cbonline/indice.htm
No fim do dia estava eu ligada na HBO - primeiro episódio da segunda temporada de Mandrake. Adivinhem onde o personagem do Marcos Palmeira veio resgatar uma puta que ia ser sacrificada em um ritual muito estranho? É...na nossa BSB. As frases de desqualificação da cidade jorravam da boca de todos os personagens... debochar de políticos não é novidade, mas até a galera comedora de folhas de Alto Paraíso foi sacaneada... Acreditam que os caras não se deram ao trabalho de vir filmar em Brasília? Colocaram umas imagens suuuper velhas no ar. O trânsito em frente ao Congresso era no sentido contrário ao que é hoje em dia. O Mandrake foi encaixado em um táxi, dando uma voltinha pela Esplanada, depois apareceu tomando um chope em um copo de plástico num trailer em frente ao Museu Nacional, a Catedral aparecia ao fundo. Esculhambou geral...
Aí, só de raiva, resolvi escrever sobre uma das coisas que eu mais gosto em Brasília – parar na faixa para que os pedestres atravessem.
É gente, eu adoro as faixas. Na grande maioria das vezes sou motorista e não pedestre. Mesmo assim, mesmo quando estou atrasada, adoro ver os pedestres e suas mil e uma maneiras de fazer o “sinal de vida” e atravessar uma rua.
Não vou dizer que é porque para mim é uma experiência antropológica, para mim, é diversão mesmo.
O meu tipo de pedestre favorito é o que eu chamo de adventista do sétimo dia. Ele chega na faixa e aponta o dedo pro céu, como se quisesse lembrar ao mundo: “Jesus, está voltando! O fim está próximo!”. Ele anda apressado pela faixa (parece que está atrasado para o culto) e nem olha para os motoristas (desprezo total, é como se soubesse que você, faça o que fizer, vai mesmo pro inferno!).
Também gosto muito do pedestre soldado - aquele para o qual todo dia é 7 de setembro. Com o braço duro, esticado mesmo, ele sinaliza que vai atravessar e vai mesmo, cabeça erguida, ele não olha pro lado, ele marcha na faixa... “Um, dois - feijão com arroz - três, quatro – feijão no prato!”.Gente, e o pedestre deprimido? Ele não dá sinal de vida porque ele quase não tem vida. Ele se arrasta pela vida e pela faixa. Ele não levanta o braço, não ergue os olhos do chão, faz só um arremedo, uma insinuação de que vai mover o braço e se você não fizer questão absoluta de parar, por ele... tudo bem. Ô dó!
Quem é que em um dia saiu de casa atrasado e não encontrou com a pedestre “velhinha reumática”? A sujeita não dá sinal de vida porque uma mão está segurando uma bengala e a outra agarrada na bolsa ou na sacola com sabe lá o que dentro. Ele apressa o passo para chegar logo na beira da calçada, mas assim que percebe que você parou o carro, a pressa acaba. Ela vai beeeeeem devagarzinho, degustando cada passada. Por vezes olha bem na cara do motorista, dá um sorriso amarelo, como se quisesse se desculpar, mas você sabe que por dentro ela está a-do-ran-do a aventura.

Poucos pedestres me divertem tanto quanto a gostosa do baile funk. Calça jeans de cintura baixa, saltão, cabelo na chapa - ela não dá sinal de vida, ela vive seu momento miss - a “bela” acena para os motoristas. Eu já vi taxista parando... hilário! Desfilando na faixa ela dá uma olhadinha pra sacar se o motorista é mesmo “o” motorista. Quando dão de cara comigo elas economizam no rebolado e levantam o queixo como se eu tivesse dito um desaforo. Fazer o quê se eu não tenho o que você gosta, filha?
E os ciclistas preguiçosos? Aqueles que não descem da bicicleta para atravessar, já repararam como todos têm uma cara de “sei que tô fazendo merda”?Os pedestres tímidos requerem uma atenção especial. Vejam bem, eles não querem que você pare. Ficam constrangidos de ter que atravessar a rua com alguém olhando. Alguns fazem de conta que estão esperando alguém ou alguma coisa. Reparem. Se você insistir e parar, eles vão virar para o outro lado, vão ficar de costas para a pista ou vão voltar a caminhar na direção em que estavam vindo.
Já viram os pedestres guardas de trânsito? Se eles estão no meio da faixa e o motorista não espera que eles completem a jornada, olham com cara feia e fazem uma espécie de mímica, fazem de conta que estão anotando o número da placa em um bloquinho invisível. Aí, aí, que meda!
Eu me divirto. Gosto de ver os pseudo-atletas de IPOD na orelha; as senhoras passeando com seus cachorrinhos; os jovens marrentos com seus pit-bulls; os trabalhadores desesperados, correndo para não perder o ônibus; as mulheres com sacolas, bolsa, guarda-chuva, arrastando filhos, lancheiras e mochilas (coitadinhas... parecem xerpas, aqueles guias do Nepal que carregam as coisas dos alpinistas que vão escalar o Everest). Gosto de ver os pedestres turistas fazendo cara de espanto quando os carros param...
Gosto de ficar por uns segundos imaginando se as pessoas que passam na frente do meu carro são felizes, se transaram na noite anterior, se viverão mais do que eu. Gosto de ver o povo da nossa Brasília, gente que não merece ser colocada no mesmo saco que os políticos - senadores e deputados de todos os cantos do Brasil, que vêm para cá cumprir os mandatos para os quais foram eleitos pelo povo dos seus estados. Né não?

domingo, 5 de agosto de 2007

A madureza, esta horrível prenda...





A madureza, esta horrível prenda...”
Este verso é de Drummond. No livro “Entrevistas de Clarice Lispesctor" descobri que o Tom (Jobim) fez referência e ele em resposta a uma pergunta da Clarice. A poeta queria saber como Tom encarava o problema (grifo meu) da maturidade.
Ele tomou um gole de uísque e respondeu:
- Não sei, Clarice, a gente fica mais capaz, mas também mais exigente.
Concordo com eles. Assim é.
Quando era jovem eu dizia, com voz de desdém, que carro automático era carro de “coroa”, de “tiazona”. Hoje, dirijo um carro automático e, se Deus quiser e assim permitir, carro mecânico - nunca mais!
Como dizem os mineiros: “Ô Trem bão...”

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Exaltação


Exaltação
Viver!... Beber o vento e o sol!...

Erguer ao céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!
A chama, sempre rubra,
ao alto, a arder!...
Asas sempre perdidas a pairar,
Mais alto para as estrelas desprender!...
A glória!... A fama!...
O orgulho de criar!...



Florbela Espanca



Meu sobrinho Erich vai estudar na UnB.
Passou para Engenharia mecatrônica nesse último vestibular. Liguei eufórica para dar os parabéns. Ele atendeu com voz de sono: “Oi, tia...” “Obrigado, tia.” “Valeu...”
Fiquei meio sem jeito. Perguntei: “Está tudo bem?”.
Ele disse que sim, eu acreditei. Desliguei o telefone. Pensei: Deve ser o sangue germânico... Nunca vi o Erich exaltado por nada.
Quer dizer, mentira, eu vi sim, uma única vez.
Ele tinha uns 7 anos de idade. O pai, louco por fogos de artifício, acendeu um rojão e colocou na mão dele. O telefone tocou, o pai saiu correndo para atender. O Erich gritou:
- Porra, pai! Volta aqui! Você me deixou aqui sozinho com essa bomba na mão!
Foi essa, também, a única vez na vida em que vi o Erich dizendo um palavrão.
É. Além de ser muitíssimo inteligente, falar alemão, inglês e espanhol, ele é um dos jovens mais educados com quem já convivi.
Sei que ele é um jovem como muitos outros. Bisbilhoto o orkut dele.

(Aliás, vou criar uma comunidade no orkut: Eu bisbilhoto o orkut dos meus sobrinhos!) Ele participa de uma comunidade entitulada – “Eu adoro beijar na boca!”. Sei que ele se exalta! Só não o faz na minha frente! Paciência.
Passados uns minutos do telefonema, fiquei achando que a voz “blasé” devia ser porque ele ainda ia ter que enfrentar dois dias de provas no Galois - sim, para poder provar que já sabe toda a matéria do terceiro ano, mesmo ainda faltando seis meses para a conclusão.
No início do ano ele também passou no vestibular da UnB para mecatrônica, mas não conseguiu os 80% requeridos na prova do Galois. Quem entende?
Bom, eu entendo. A mensalidade custa R$1.200,00 X 12 = 14.400,00. Por que cargas d’água eles iriam fazer uma prova no mínimo justa?
Eu também considerei a possibilidade da falta da exaltação (que eu esperava) ser por conta da greve da UnB. Quem merece?
Ele não vai nem poder fazer a matrícula na data prevista!
Foi aí que eu percebi que minha curiosidade em saber o motivo da voz “blasé” do Erich, no fundo, era medo. Medo de que a UnB não fosse para ele o que foi para mim.
Quando entrei na UnB tinha 16 anos. Como o Erich, entrei no meio do ano. Vocês podem pensar que entrei cedo. Para mim, foi tarde!
Eu fui alfabetizada para entrar na UnB.
Explico: quando eu tinha 4 anos, a Lúcia, minha irmã mais nova, mãe do Erich, tinha 14; minhas outras duas irmãs, gêmeas, tinham 16; meu irmão, César, tinha 17 e a minha irmã mais velha, a Glória tinha 18. Ou seja, quem não estava na UnB, estava estudando para entrar.
Meu pai era funcionário do Banco do Brasil. Minha mãe ainda não trabalhava. Cada filho que entrava na UnB significava um aumento substancial na renda familiar.

Lembro que nos momentos de raiva meu pai gritava (perdoem-no, ele tinha 5 filhos adolescentes e 1 criança em casa!):
- Pago colégio particular, mas faculdade não! Quem não entrar na UnB que se prepare para trabalhar!
Aquilo entrou na minha cabeça de uma forma...
O que valia para os meus irmãos, com certeza, devia valer para mim também. Eu nem sabia o que era jardim de infância, mas UnB eu sabia – era o lugar onde eu tinha que entrar, senão meu pai ia ficar muito bravo!
Apartamento grande (308 sul), meus irmãos em seus quartos tentando estudar, lendo alguma coisa, e eu, por lá, pentelhando ora um, ora outro. Um me dava uma folha de papel, o outro emprestava um lápis, um ensinava uma coisa, eu aprendia, ia mostrar para o outro. Fui mesmo alfabetizada em casa, aos 4 anos de idade.
Minha irmã, Glória, foi Miss UnB – 196?. Fazia arquitetura, faço idéia o sucesso que ela devia fazer ao passar pelo Ceubinho... (A Carla Peres perderia para ela em circunferência do quadril).
Pois é... para quem não sabe, Ceubinho é um lugar dentro da UnB, próximo à Faculdade de Arquitetura, onde todo mundo se encontra para não fazer nada ou para jogar: conversa fora ou truco. Viram só? Essa é, ainda hoje, a maneira pedante, dos UnBestas, dizerem que gente inteligente, que quer alguma coisa da vida, que faz alguma coisa da vida, não vai para o UniCeuB.
Grande mentira. Todos sabem que trabalhar e estudar na UnB requer um esforço sobre-humano. O mais comum é que quem precisa trabalhar, quem quer fazer mais alguma coisa da vida além de estudar, acabe mesmo fazendo Ceub, ou outra Faculdade particular. Foi o caso da minha irmã Fátima, a Mama.
Ela começou a fazer jornalismo na UnB. Meu sobrinho Rodrigo, filho dela, foi o bebê inaugural, o primeiro a ser matriculado, na creche da UnB. Depois, como ela estava trabalhando no Banco Central, não deu para continuar na UnB. Acabou se formando no CeuB. Mas, adivinhem onde ela estuda hoje? Na UnB. Faz Educação Artística. Está prestes a se formar.
Passei na UnB meus anos dourados – dos 16 aos 20 anos. Namorei muito, confesso. Fiz os 4 pontos cardeais -namorei na Faculdade de Saúde, na de Relações Internacionais, na de Engenharia, no C.O. Fazia em média 30 créditos por semestre, estudava inglês e ainda jogava handeball pela UnB.
Um tempo bom que não volta mais.
Em 2005 eu voltei à UnB, para o mestrado em Psicologia da Saúde.
“Não se pode entrar no mesmo rio duas vezes” É, quando entrarmos de novo, o rio já não é o mesmo, e nós também não.
Encontrei grades nas saídas do minhocão e nas portas das salas dos professores. Não encontrei papel higiênico nos banheiros. Meus mestres? Também não estavam mais lá. Muitos morreram, outros se aposentaram, alguns, professores eméritos, por vezes passavam calmamente, como ilustres desconhecidos, por entre jovens que esbarravam neles sem saber que aprenderiam seu ofício de psicólogos em livros escritos por aqueles senhores de cabeças branquinhas. Os novos docentes? Meus colegas de graduação e pós. Gente boa, mas sem entusiasmo (salários baixíssimos - não justifica, mas...), sem brilho, sem o poder de inspirar aqueles jovens. Presenciei brigas de departamentos, de colegiados, baixarias mesmo – fiquei pasma!
Foi como se, maravilhada com o espetáculo, eu tivesse decidido ir à coxia, e o encanto tivesse se quebrado...
Ano passado levei meu filho, que hoje tem 5 anos, à UnB e fui mostrando: Ali é o prédio onde seu pai e sua Dinda estudaram, ali onde seu Dindo e seu Tio Silvio estudaram. Esse todo colorido é onde Tia Mama estuda. Neste, que parece uma minhoca gigante, foi onde eu estudei. Depois levei ele ao C.O – aqui é onde seu Tio Silvio morava quando veio estudar aqui.
Meu filho ficou abismado:
- Mãe, que escola grande! É muito maior que a minha!

Nó na garganta. Como será que a UnB vai estar quando chegar a vez dele? Será que ele vai querer estudar lá? Ainda vai haver vestibular? E as cotas, meus Deus, no que é que isso vai dar?
O que diriam Anísio Teixeira e Darci Ribeiro se estivessem na UnB hoje?
Nosso Museu Nacional, na Esplanada, apesar da ausência do nome na placa, chama-se Honestino Guimarães. Vou contar ao Erich tudo o que sei sobre Honestino - um jovem preso no campus da UnB em 1968. Líder estudantil - foi expulso na universidade porque se exaltava. Em 1973, sumiu, foi morto, também porque se exaltava.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Ah! Minha vida com Fräulein


Domingo de manhã - a primeira coisa que faço é conferir os números do sorteio da Mega-Sena. Não, não foi desta vez. Alguém em Florianópolis está milionário, não eu. Sei que vou passar o dia, não, a semana, atendendo a ligações de candidatas à vaga de doméstica aqui em casa.
Piedade, Senhor, piedade!
Pergunto sempre as mesmas coisas a quem liga: “A senhora é uma boa cozinheira?”. 99,8% das vezes, a resposta é: “Eu cozinho... (reticências)”. Se eu pergunto: “O que é que a senhora sabe fazer, assim... muito bem?” A resposta, 99,8% das vezes é: “Lasanha, estrogonoff...(reticências, mesmo!)”. Os outros 0,2 % incluem umas coisas estranhas como: "bife à roleta" (Será russa, Jesus? Salve-se, quem puder!) e "frango afogadinho" (onde, meu Deus, essa criatura afoga o frango?).
Essa pergunta parece simples, mas não deve ser. Algumas candidatas parecem que foram treinadas em cursos de formação de psicoterapeutas. Elas respondem uma pergunta com outra, de entrevistadas passam a entrevistadoras: “O que é que a Senhora gosta de comer?”.
Gente, como se diz lá em Minas: "Tem base um trem desses?". Até bronca eu já levei.
- “A senhora devia colocar um número de telefone fixo no anúncio! Pensa que quem está procurando emprego tem dinheiro pra ficar ligando pra celular é?”
Vocês acham que foi só essa vez? Não, teve outra. Uma candidata reclamou porque ficou ligando segunda-feira durante a manhã toda e eu não atendi. Que pena, né? Eu tinha que trabalhar!

Melhor escutar essas coisas do que ser surda.
Entre uma ligação e outra fico pensando: E se eu realmente tivesse acertado os números? Ia ter uma casa maior, ou melhor, casas maiores - e seria ainda mais difícil conseguir boas empregadas. Jesus, ser milionário: benção ou castigo?
O que sei é que não ia querer nunca mais me preocupar com nada - sobretudo com as pequenas coisas de casa. Eu nunca mais ia querer ouvir alguém dizendo: “O microondas está fazendo um barulho esquisito, acho melhor a senhora chamar alguém para vir dar uma olhadinha...” (Essa olhadinha do técnico da Brastemp custa R$25,00, dá para acreditar? O sujeito só tem que atravessar a rua!)
Se um dia eu ficar muito rica (sim, porque só rica, não basta) vou querer uma governanta, e ela que cuide de contratar as empregadas, ensinar como a casa funciona e demiti-las, quando for o caso.
Taí, se um dia eu ganhar na Mega minha primeira providência será: uma governanta, uma Fräulein!
Ela é quem ensinaria às “dods” onde são guardadas as colchas, as toalhas, o que combina com o quê, qual a travessa do arroz, qual o ponto certo do filé do Sr. Fabiano, quais os ingredientes da vitamina que ele toma todas as manhãs e etecetera e etecetera e tal.
Fräulein é quem ia dizer à arrumadeira como são guardadas as camisas do Sr. Fabiano - o que, aliás, é simples: cabides todos na mesma direção, começando com as de cores mais claras até as mais escuras, e fim de papo. Queria vê-la explicar como são guardadas as minhas camisas! Jesus! Como será que se constrói o conceito que permite uma pessoa saber a diferença entre as camisas que uso para sair de dia, para ir a festas, para ir à ginástica e para dormir? Deve ser uma derivação do que é lavado à mão, o que se coloca na máquina, o que vai para a lavanderia... não, não pode ser assim tão difícil, não é mesmo?
Queria ver também como é que ela faria para que as empregadas entendessem que do queijo branco, de Minas, elas podem usar - e abusar -, mas que daquele que parece que está todo mofado, elas não podem. Eu não dou conta de falar. E a culpa? Para isso - Fräulein!
Com ela tudo haveria de entrar nos eixos! O arroz teria a quantidade certa de sal, não estaria nem muito solto, nem muito grudado; os guardanapos estariam sempre limpos e bem dobrados; o vazamento no box do banheiro seria consertado; o parafuso da porta do armário, que tinha caído, estaria como se nunca tivesse saído do lugar; e “lâmpada queimada” seria apenas uma expressão sem muito sentido.
Ah! Minha vida com Fräulein...
Estou pensando seriamente em imprimir este post para depois jogá-lo ao vento. Quem sabe, como no filme Mary Poppins, Fräulein não desce das nuvens?

sábado, 7 de julho de 2007

Bão Também (25 de junho de 2007)



Essa, todo mundo já ouviu, mas eu vou contar do meu jeito e, já aviso, vou mudar o final...
Um sujeito bem matuto, lá do interiorzão de Minas Gerais, um dia, encontrou sei lá eu onde, nem como... a lâmpada do Aladim. Esfregou a lâmpada e lá de dentro saiu o gênio. E, tal e qual aconteceu com o Aladim, o mineiro foi orientado pelo gênio a fazer três pedidos. E não é que ele pediu de cara - um queijo!
-“Um queijo?” - perguntou, surpreso, o gênio.
-“É, Seu Gênio, um queijo, daqueles redondos, desses daqui de Minas mesmo, se o Senhor puder, é claro!”
Concedido o pedido. O gênio que tinha ficado séculos preso dentro da lâmpada e estava doido de vontade de terminar logo suas obrigações, começou a apressar o mineiro:
- “Vamos lá... O que mais você vai querer?”.
- “Ah, sei não. O Senhor vê aí... O que o Senhor quiser me dar, tá bão.” - disse o sujeito.
- “Não, de jeito nenhum, o pedido é seu. Peça o que quiser”, respondeu, sem paciência, o gênio.
Depois de pensar um pouquinho, o sujeito falou: - “Pois me dê outro queijo!”.
O gênio fez uma cara de “Não tô acreditando”, um “Txacabum” - e o segundo queijo apareceu.
Aí, chegou a hora do terceiro pedido. O gênio tornou a apressar o sujeito:
- “Vamos logo, escolha com sabedoria seu terceiro e último pedido!”
O mineiro foi ficando assim, meio sem jeito, olhou para os lados, para o chão, colocou a mão no bolso, coçou a cabeça... Não sabia o que pedir.
O gênio, receando que ele pedisse outro queijo, já com pena do sujeito, tratou de dar uma sugestão.
- “Você é um moço tão sozinho. Por que não pede uma boa moça, bonita, sincera, saudável, carinhosa, paciente. Alguém que possa lhe fazer companhia, você me entende?”
- “Uai, Seu gênio, e o senhor tem a condição de fazer aparecer uma moça assim, com um “txacabum” desse seu aí, tem”?
- “Tenho. E também posso lhe trazer fama, ou fortuna. Posso fazer aparecer uma linda fazenda - só para você! O que prefere?”
- “Tô besta!” – disse o mineiro, olhando o gênio de cima a baixo, sem saber ao certo se acreditava.
- “E aí, o que vai ser?” – insistiu o gênio.
- “Pode ser a moça mesmo... do jeito que o Senhor falou”, disse o sujeito, meio que para se ver livre do gênio.
E “Txacabum” o gênio fez surgir uma linda moça bem na frente do matuto.
A moça, toda meiga, já foi dando o braço para o mineiro e os dois já iam saindo dali, caminhando pela estrada, quando o gênio chamou o matuto e disse:
- “Já pensou se eu deixasse você escolher. Era bem capaz de você estar aí agora com três queijos, hein?”
O mineiro, todo satisfeito, segurando seus dois queijos e de braço dado com a moça disse:
- “Uai, era bão também, né?”

Pois é gente...
Proponho a vocês que essa semana, seja a nossa semana – Bão também.
Explico. Quero que vocês prestem atenção naquelas coisinhas à toa que acontecem de repente e deixam a gente feliz.
Por exemplo: achar uma vaguinha para estacionar o carro na sombra, justamente quando a gente achava que ia ficar horas procurando por uma vaga; achar aqueeeele Alpino esquecido dentro da bolsa, bem naqueeeeele dia da TPM; descobrir que a reunião importantíssima para a qual você está suuuuper atrasada ainda não começou; vestir aquela calça que há tempos você não usava e perceber que não só ela serve, mas até está meio folgadinha...
Enfim, diante desses pequenos milagres, desses “Txacabuns” geniais, ou, como diz o meu Professor de ginástica André Sá: “dessas bençãos de Deus em nossas vidas!”, vamos dizer em voz alta: “Bão também!”.

PS1: Deixo aqui registrado meu apreço e carinho pelo povo de Minas Gerais e seus maravilhosos queijos. Com esse “causo” pretendi enaltecer sua simplicidade e sabedoria. Longe de mim querer fazer “troça” deles, viu?

PS2: Se vocês quiserem compartilhar os “Bão também” de vocês... tô aqui...

Procurando chifre em cabeça de cavalo (19 de junho de 2007)



Um dia... pronto!... me acabo.
Pois seja o que tem de ser.
Morrer: que me importa?
O diabo é deixar de viver!

Mario Quintana
Chegada a hora de fazer seus exames periódicos de saúde, percebi que, de início, fiquei arranjando mil desculpas para não marcar logo a consulta inicial – “Essa semana é impossível!”, “Isso vai virar minha vida de pernas para o ar!”. Quando finalmente consegui marcar a tal consulta, faltei. Depois remarquei, fui, mas se atrasei. Na semana seguinte perdi os pedidos de exames, demorei uns dois dias para localizá-los - hemograma completo, mamografia, ecografias mamária e transvaginal, densitometria óssea e mais o encaminhamento para o ginecologista. Pode até não parecer muita coisa, mas, para mim, era. Só pensava na osteoporose da minha mãe, do AVC da minha irmã, no câncer de mama da minha outra irmã, nos meus fibroadenomas... Em fim, estava com medo. Medo de descobrir-me doente. Medo de confrontar a possibilidade de morrer.
“O medo é a presença do terrível-não-acontecido, se apossando da nossa vida”, escreveu Rubem Alves. Pode ser que apareça alguma coisa nos exames. Pode. Entretanto, ainda não apareceu e nem sabemos se aparecerá. Contudo, lá estava eu, paralisada de medo.
Já escutei algumas pessoas falando: “Para que fazer exames quando a gente está bem? Essa coisa de prevenção é invenção de médicos, hospitais e laboratórios para ganhar dinheiro! Eu não fico procurando chifre em cabeça de cavalo... Quem procura, acha!”. Eu penso é que quem procura, se não tem, não acha. E se tem, acha e trata, com muito mais chance de sucesso. Mas, na hora do “vamô ver como é que fica...”, o buraco é mais embaixo...
O medo não é uma perturbação psicológica, é parte de nossa alma. O que devemos observar quando temos medo é se, por causa dele, nos encolhemos, nos escondemos, rastejamos, ou corremos o risco, nos atiramos, voamos. O passarinho que por medo do gavião se recusasse a sair do ninho, já teria perdido a própria vida. O medo lhe teria roubado o que de mais precioso existe na vida de um pássaro – o vôo. Quem por medo da morte, prefere fugir, já, neste ato estará morto. O medo lhe terá roubado o que de mais precioso existe na vida humana: a capacidade de se arriscar para viver plenamente o que se ama.
Nós, humanos, somos os únicos animais a ter prazer no medo. Ficamos nas manhãs de domingo extasiados diante da TV assistindo às corridas de fórmula 1 - homens dirigindo em alta velocidade, passando a poucos centímetros de muros, fazendo curvas acentuadas, freando bruscamente. É de dar medo...
Soube que Viviane Senna após ter perdido o marido e o irmão em acidentes, temia que o filho também retomasse sua carreira automobilística. E foi exatamente o que aconteceu. Um dia ele disse: “Mãe, é isso que eu quero. Preciso voltar a correr”.
Quem, a despeito do medo, se arrisca e escolhe a vida, triunfa sobre a morte. Morrerá quando a morte vier e não antes. Coragem não é ausência de medo, é viver a vida aceitando o risco da morte, a despeito do medo.
E lá vou eu... fazer o quê?
Mamografia!!!

Eu adoro bolsas (17 de abril de 2007)


A Vogue deste mês parece uma bíblia. Não pelo conteúdo, mas pelo peso. O pacote é três em um, você compra a Vogue e leva junto a Vogue jóias e a Vogue Kids – quase 500 páginas.
Domingo à tarde agarrei minhas revistas e um pote de sorvete de morango Häagen-Dazs e me atirei no sofá. Aproveitei que meu marido e filho estavam dormindo e fiquei horas folheando a revista, brincando de ser rica.
Esbarrei em uma reportagem louca. Explico. A manchete era: “S.O.S Costas – A obsessão dos estilistas por bolsas pode deixar você em maus lençóis”. A jornalista Victoria Ceridono contava como teve que mudar sua rotina fashion por ordens médicas. No texto o ortopedista Henrique Haidar Jorge explica que o peso em excesso desgasta a articulação do ombro, desloca a coluna e tira a musculatura de sua posição ideal. Um quilinho extra na bolsa significa três vezes mais impacto no quadril e quatro no joelho.
Tudo bem, ou melhor, ou pior, tudo mal. As ilustrações da matéria eram as maxibolsas mais cobiçadas do planeta! Da Burberry, da Marni, uma mochila laranja da Prada e, por fim, a bolsa de verniz da Chanel, hit entre as editoras de moda de Paris. Quase derramei sorvete na revista. Babei!
Eu adoro bolsas. Incondicionalmente. Minhas amigas sabem disso. Posso ser vista com 1,5 cm da raiz do cabelo sem tintura, de chinelo, sem batom (isso é freqüente), com as pernas sem depilar e as unhas por pintar, mas com bolsinha sem estilo – nunca! Pode ser de palha, de plástico ou de continhas coloridas, mas eu com certeza as estou achando lindas!
Não tenho todas as bolsas que amo, mas amo as bolsas que tenho – não são muitas, mas gosto mesmo muito delas.
Não combino bolsa com sapato, muito menos com a roupa. Sei que devia, sei que bolsas são um acessório exigente e difícil, mas, não forço a barra. Na hora de sair pego a que estou com vontade e saio, sem olhar para o espelho.
Minhas bolsas em geral são atoleiros de extratos bancários, contas a pagar, batons sem tampa, cremes hidratantes de validade desconhecida, absorventes fora da embalagem, moedas de euro que sobraram da viagem feita a Roma em agosto do ano passado, cartões de embarque de viagens aéreas cuja memória se perdeu (gente, não é que eu já estive em João Pessoa?), chaves de gavetas de mesas de trabalho que eu já deixei há anos, canetas que não escrevem direito, óculos arranhados, uma escova de dentes que parece ter sido usada para limpar prataria, celular com bateria descarregada e brinquedos para distrair meu filho em restaurantes, consultórios médicos ou qualquer outro lugar em que “role uma espera”.
Quando compro uma bolsa nova é como ano novo. Faço votos que não cumpro depois. Juro que desta vez vai ser diferente. Jogo “coisas” fora e separo objetos absolutamente necessários – a carteira, meu rímel L’extrême da Lâncome – TUDO DE BOM – e um gloss. Da última vez usei até uma bolsinha própria para cosméticos, toda reluzente, como as que minhas amigas competentes usam para poder mudar de bolsa com rapidez e sem transtorno. Em questão de dois dias, porém, minha bolsa acumula novamente o lixo de uma vida. Os cosméticos misteriosamente pulam da bolsinha (tudo bem, eu sei que esqueci de fechá-la!) para a parte interna da bolsa, ou aparecem no bolso externo da bolsa, onde eu jurei que só colocaria chaves.
O pior é quando o VISA resolve desaparecer. A última vez foi quando estava na farmácia, pagando pelo filtro solar que deve custar uma semana do salário da moçinha do caixa – fiquei pra morrer de constrangimento. Fazer o quê? Meu rosto está todo descamado por causa do ácido que estou usando para tirar manchas e reduzir a oleosidade da pele. Tenho medo de comprar um outro mais barato e desobedecer à dermatologista – cuja consulta (de meia hora) deve custar mais de uma semana do salário da vendedora... Enfim, achado o cartão, paguei pelo filtro - que na semana seguinte estava sem tampa, escorrendo pelo forro da bolsa.
Responsáveis por boa parte do peso da minha bolsa são agendas e caderninhos (aqueles que são vendidos nas saídas dos museus). Sempre tenho uns dois ou três dentro da bolsa.
Meu marido me deu uma maravilha tecnológica - dessas que prometem conectar você ao mundo, guardar nomes, endereços, telefones e e-mails de todos que alguma vez já te deram um bom dia. Só que a “maravilha” funcionaria, apenas, se a bateria fosse carregada – coisa difíííícil de acontecer... Ele diz que não acredita em papeizinhos, quando me vê anotando telefones ou horários de consultas em um das minha três agendas ou, quando não as localizo - no verso daqueles folhetos que colocam nos pára-brisas dos carros oferecendo dinheiro rápido, o coitado fica em tempo de enfartar.
Quando entro no elevador e me olho no espelho, por vezes, fico rindo sozinha, feito besta. É que alguns dias pareço os xerpas, aqueles guias do Nepal que carregam as coisas dos alpinistas que vão escalar o Everest.
Um amigo me disse que, invariavelmente, uma mulher que carrega uma garrafinha de água para onde vai é uma chata. A partir de então carrego só, meia garrafa.
Eu poderia fugir de casa levando somente minha bolsa. Acreditam que agora que eu voltei para ginástica, consigo acomodar meu tênis na bolsa?
Minha bolsa é um buraco negro e denso. Passo horas tentando pescar coisas lá dentro (uma lanterna poderia ser útil, mas se eu a guardasse na bolsa...), mas não a abandonarei, mesmo tendo medo de ter uma bursite e de precisar de uma cirurgia após anos usando bolsas com quase 5 quilos de tralha.
Queridas, acima, ilustrando esse post - meu soooonho de consumo – essa bolsinha Jimmy Choo de €791,67.

Let's go shopping! (16 de abril de 2007)


Tá, já que voltei para ginástica, tive que comprar roupas adequadas e um tênis.
Por roupas adequadas entendam: tops que tampem minha barriga, camisetas para colocar sobre os tops – que tampem minha barriga, calças que escondam minha depilação vencida e que tenham um cinto, um cós, enfim, qualquer coisa que - tampe minha barriga!
Preciso de tops milagrosos que ao mesmo tempo aumentem e levantem meus seios, sem, contudo, deixar que eles saltem pra fora no primeiro segundo da aula.
Decidi olhar primeiro o que as mulheres “da minha idade” estavam usando. Malhei em horários diferentes, fiz atividades diferentes. E, surpresa: “Elas usam o mesmo que as meninas do Galois”.
Fui ao shopping e minha vontade era experimentar uma “ankle boot” da Osklen – TUDO DE BOM! – que eu vi na Vogue este mês. Só para curtir, para ter aquele momento “Gisele”, porque ela custa quase um mês de mensalidade do Galois, ou seja mais de mil reais!


Para minha sorte ou azar, sei lá, a “botinha” não chegou a Brasília... (Why? Será que é porque a seca já chegou, o sol ta de rachar e alguém lá no Rio ou em São Paulo acha que a gente não gosta de moda outono-inverno?)
Então tá, sem a bota, fui procurar o tal tênis novo.
Amigas, vocês sabem o tipo de pisada de vocês?
Sabem se são supinadoras ou pronadoras?
Mas são supinadoras ou pronadoras severas, moderadas ou leves?
Acaso, têm conhecimento se seus pés são planos, côncavos ou convexos? (Não, “Côncavo e convexo” não é só aquela música do Rei Roberto).
Pois é, não basta escolher a marca, a cor ou o modelo bonitinho, é preciso ter consciência corporal pra comprar um tênis. Se você não tem, para evitar humilhações públicas, descubra. Peça a alguém que tire uma foto sua de costas e olhe seus calcanhares; observe a sola dos seus tênis antigos e veja onde eles estão gastos; veja dentro do tênis como fica sua palmilha depois de uns meses de uso; pinte seus pés com tinta guache e pise em uma folha de papel A4, consulte os sites da Nike, da Adidas, da Mizuno ou, se você “tem bala na agulha” – pergunte ao seu personal trainner – e ele que se vire pra descobrir.


Eu sai da loja com um tênis para pronadoras moderadas de pé plano. Traduzo: para mulheres que têm pé chato e pisam para dentro, colocando muito peso atrás e pouco na frente. Paguei o dobro do que queria gastar em um tênis, mas metade do que poderia ter gasto se tivesse comprado a “ankle boot” da Osklen.

Meu tênis novo... Ironia do destino, “atende” pelo nome de Nirvana (rs...rs...rs... rs...)