segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Saudades da Chuva...








A ausência de chuva nos últimos 117 dias me fez sonhar com minha última visita a Florianópolis, ou melhor, com minhas últimas visitas.
Em abril deste ano estive em Florianópolis acompanhando meu marido que fez a “Volta à Ilha” correndo com “Os Bruxos” – um grupo de amigos corredores nada convencionais. Os Bruxos se divertem correndo, seja debaixo de chuva, de sol quente, na areia, na lama, no asfalto, descendo ou subindo. Para eles, desde que estejam movendo os pés, tanto faz o terreno ou o clima. Liberadas as endorfinas, “Os Bruxos” voam sem vassouras e estão sempre dando risadas - bando de doidos!
Este ano, como no ano passado, no período da corrida, choveu em Floripa. Choveu ininterruptamente. Às vezes chovia muito, às vezes pouco, mas choveu o tempo todo.

Meu maridinho, que não é bobo nem nada, pra garantir a felicidade da família, nos hospedou num hotel lindo. O pessoal do hotel, que também não é bobo nem nada, sabendo que iria chover durante toda nossa estada, pra garantir nossa felicidade, nos deu um up-grade de quarto e nos presenteou com o que tinham de melhor – a linda vista dos morros e da praia, cama Super-King, lençóis de algodão egípcio centos mil fios e uma boa banheira de hidromassagem. Sair do quarto pra quê? Eu tinha um livro delicioso e meu filho um Play Station Portátil, livros para colorir e muitos lápis de cor. Cortinas abertas e pronto, marido liberado para correr.

Foi então que descobri que quando chove as praias ficam mais bonitas. Durante a chuva a praia fica lisa, solitária. Quase ninguém. Nunca fui do tipo praia de Porto Seguro - com falatório, agito, som… Até vou, mas não curto. Em Floripa percebi que prefiro a música do mar e do vento porque ela faz eco na minha alma. Lá, eu nem ouvia vozes humanas, só o pio dos pássaros. Meus pensamentos vinham mansamente, eu sentia minha alma se aquietando diante do mar gelado.

Quando voltei pra casa as pessoas perguntavam: - E aí, fez sol?

Eu respondia toda feliz: - Nãããããao, choveu o tempo todo!

Ai que saudades daquela chuvinha boa... 

segunda-feira, 19 de abril de 2010

David - Medo e Atrevimento


Fui a Florença em 2006. Fui não, passei correndo. Estava em Roma para um Congresso e corri lá dar uma espiadinha numa coisa. Eu queria ver o David do Michelangelo de perto.
Sempre que eu via alguma foto ou reprodução da escultura, imaginava que o David estava pensando: “Eu vou dar uma pedrada bem no meio da testa desse gigante...”. Para mim, ele parecia ter um olhar que misturava medo e atrevimento, um jeito de adolescente na plenitude de sua força e ainda sem muito juízo, sabe?
Pois bem, cheguei lá na Galeria Accademia de Florença, e fiquei meio abestalhada olhando o David banhado pela luz do sol que passa pela cúpula. A escultura estava limpinha, limpinha, reluzindo. O ar carregado de pó de mármore. A escultura havia passado por um processo de restauração e a sensação que dava era de que Michelangelo acabará de largar o martelo e o cinzel. Coisa de doido.
A escultura é muuuuito mais do que eu tinha imaginado. Ela tem mais de 5 metros de altura, mas me pareceu beeeem maior, ou fui eu que encolhi diante dela, sei lá. Bom, toda a escultura diz: “Eu vou dar uma pedrada na testa desse gigante...” - não é só o olhar. A pedra sorrateiramente escondida na mão, a outra mão pegando a funda discretamente, a sobrancelha desgrenhada, a boca levemente tensionada – tudo é medo e atrevimento, simultaneamente. Cada músculo da coxa mostra isso.
Por que resolvi blogar sobre isso hoje? Anos depois? É que aquela fração de tempo em que tudo pode mudar, aquele segundo, que antecede a queda de Golias ou a iminência da morte de David, mora em nós e sinto que minha hora se aproxima, em breve vou dar uma pedrada na testa de um gigante...